Flexibilidade, conhecimento, inovação e ação nas organizações

Foto de Tom Parkes na Unsplash

Explicar às novas gerações como era a Golegã, o país e o Mundo em 1982, quando, ao lado do meu pai, com apenas 15 anos, fundei a Casa Mendes Gonçalves, é um exercício quase cinematográfico.

A centralidade que hoje vivemos era, naquela altura, uma interioridade que pesava. Pesava no tempo e no custo das deslocações; pesava por estarmos longe dos centros de decisão; pesava porque as condições e infraestruturas de mobilidade eram uma miragem; e pesava porque o acesso a cuidados e a direitos básicos, sobretudo à educação, ao conhecimento ou à informação era, a nível local, apesar de bem-intencionado, muito ténue.

Ainda assim, persistimos por cá. Com orgulho, firmemente agarrados às nossas raízes. Com os pés banhados pelo rio Tejo; de braços abertos entre a imponência da Serra de Aire e a imensidão dos campos férteis da Lezíria; de mãos dadas com os terrenos alagados pelo rio Almonda, no Paul do Boquilobo, santuário de biodiversidade; e de olhos postos nas tradições seculares vividas entusiasticamente pelas nossas gentes.

Hoje, passados mais de 40 anos de mudanças, progresso e desenvolvimento, somos uma empresa, um território e pessoas diferentes, inabalavelmente movidos pelos mesmos valores de então.

Liderança, ousadia e criação de oportunidades sustentáveis

Vivemos num mundo em constante mutação. Os contextos sociais, familiares, económicos e políticos estão em permanente transformação e toda essa instabilidade reflete-se de forma muito direta no nosso dia a dia. Se é certo que a evolução faz parte do quotidiano, a verdade é que a velocidade a que acontece atualmente tem-se tornado avassaladora.

E é aqui que a capacidade de resposta e de adaptação se tornam fator-chave. Num meio empresarial em particular, mas em todas as vertentes da nossa vida, de um modo geral, são essas as competências que podem ditar o nosso êxito ou o nosso fracasso (que por cá fazemos questão de converter em aprendizagem). Na Casa Mendes Gonçalves chamamos-lhe “inquie-tudo” e é uma das nossas premissas: a atitude inquieta de quem ousa sonhar com possibilidades infinitas, responder a desafios e procurar, incansavelmente, novas ações e colaborações pelo futuro de todos.

Uma ousadia que tem a pretensão e a firmeza de contribuir para transformar vidas de forma positiva e sustentável. Criar oportunidades, solucionar problemas, capacitar as pessoas e a comunidade: só assim é possível construir um futuro de bem-estar.

Uma ousadia que nos leva a inovar e a fazer diferente, transformando novas ideias e transferindo o conhecimento científico para ações que promovem bem-estar e desenvolvimento.

Resiliência organizacional em tempos de crise e instabilidade geopolítica

No passado recente, primeiro com a pandemia de Covid-19, e posteriormente com a instabilidade geopolítica mundial (em particular o conflito entre Rússia e Ucrânia e, mais recentemente, a situação vivida na Faixa de Gaza), vimos ser testada a nossa flexibilidade para, mais do que mudar, encontrar soluções rápidas e urgentes, evitando disrupções no nosso processo produtivo e em toda a nossa cadeia de valor. O acesso dificultado a matérias-primas essenciais ao fabrico dos nossos produtos ou a deterioração das condições de segurança nas habituais rotas de distribuição, impulsionaram-nos a questionar, a investigar, a propor.

Encontrar respostas era, e é, o único caminho. A volubilidade raramente se faz anunciar, por isso, a forma de anteciparmos o seu impacto é garantirmos que estamos preparados para reagir. Tal só é possível com resiliência, proatividade, procura constante por conhecimento e informação.

O que preconizo é, mesmo, um plano de ação muito linear: estudar, documentar, partilhar boas práticas, criar processos e medir impacto. A partir daqui, com visão, união e espírito de equipa, ganhamos a capacidade de inspirar.

Sustentabilidade corporativa e estratégia ESG como diferencial competitivo

Estes são pilares essenciais de concretização de uma política sólida de sustentabilidade, com enfoque nos três critérios: Environmental, Social & Governance. E esse é um caminho que temos seguido com especial compromisso, rigor e empenho. Os resultados são crescentes, notórios e reconhecidos.

Esta metodologia, numa primeira abordagem, pode parecer complexa mas, quando considerada prioritária no seio das organizações, é fator diferenciador e de sucesso. Só assim é possível estarmos atentos às tendências do mercado global, inovar e ir ao encontro do que o cliente precisa e valoriza, propondo respostas à medida, seja ao nível do produto, da embalagem ou até dos modelos de comercialização.

O mesmo é válido na responsabilidade social corporativa. Urge olhar para o contexto que nos rodeia, conhecê-lo, escutar os anseios da comunidade, criar sinergias e dar respostas. Esse empenho terá, necessariamente, um efeito transformador no médio e longo prazo, com resultados que vão muito além da mera notoriedade da empresa. É criar impacto direto na vida das pessoas, das populações e das organizações com as quais interagimos. É fazer a verdadeira diferença.

Inteligência Artificial nas empresas: desafios, oportunidades e ética

Os desafios são constantes e forçam-nos a estar em permanente estado de alerta e prevenção. Hoje confrontamo-nos com novos contextos que podem causar natural desconfiança e renitência, mas que também oferecem um universo de possibilidades. Como tal, tem de ser encarada de forma séria, mas sobretudo construtiva e consequente.

O debate que resulta do crescimento exponencial da Inteligência Artificial (IA), sobre o seu impacto, aplicabilidade, riscos e repercussões está, inevitavelmente, na ordem do dia. E é essencial que o façamos, com abertura, em consciência, e sem posições extremadas. Não apenas porque o futuro passa obrigatoriamente por aí, mas porque o futuro já chegou. Esse futuro é hoje e exige a nossa adaptação. É bom que saibamos dele tirar o melhor partido possível.

A KPMG apresentou recentemente os resultados nacionais do CEO Outlook 2025 que, para além de outros temas relevantes no mundo empresarial, vem confirmar que a cibersegurança e a integração da inteligência artificial nos processos das empresas e na força de trabalho são duas preocupações na gestão atual dos CEO.

O estudo demonstra também, visão com a qual me identifico, que esta é uma oportunidade de apostar na formação e requalificação dos trabalhadores, sobretudo nas áreas tecnológicas, na literacia digital, com natural enfoque na IA. Empoderando-os. Não se trata de reduzir recursos humanos. Trata-se de dotá-los das competências que lhes permitam desempenhar novas e desafiantes funções.

A IA deve ser uma ferramenta de suporte ao negócio. É incontornável e não deve ser demonizada. Permite ganhar tempo, acelerar processos, reduzir custos e evitar desperdícios. É parte integrante da inovação e do desenvolvimento e, como tal, há que a encarar com responsabilidade, com prudência e com equilíbrio. E também aqui as questões da regulamentação e da ética são prementes e essenciais. Até por uma questão de confiança por parte do consumidor, tem de haver um compromisso com a clareza e a honestidade. E isso é válido, desde logo, para a maneira como comunicamos.

Potencial humano, liderança consciente e futuro do trabalho

Este texto foi escrito sem recurso a IA. Por muito útil e tentador que fosse, para uma otimização de tempo, ou como suporte a uma organização e fluidez de raciocínio e de discurso. Fi-lo, neste exercício específico, por opção. Quis que este artigo refletisse genuinamente o que sou, a forma como penso, o que me motiva e a visão que tenho da realidade que me rodeia.

Acredito que o que nos impele para o sucesso é, precisamente, aquilo que nos valoriza face à automação: a propensão para o erro. Somos uma máquina de errar. E é na tentativa falhada que nasce a melhoria. É na persistência que floresce o dinamismo. É na determinação que reside a capacidade de impulsionar os nossos resultados.

Assim, saibamos encontrar o equilíbrio entre avanço tecnológico e valorização de competências sociais e humanas, individuais e coletivas. O foco continua a estar nas pessoas, no que elas podem aprender, no conhecimento que podem partilhar, como devem evoluir em tudo o que conseguem aportar às organizações. A mim, cabe-me continuar a dar-lhes o espaço e as ferramentas para que se tornem naquilo que ambicionam, atingindo todo o seu potencial.

É dessa forma que encaro cada dia: uma oportunidade de continuar a cimentar a relação que existe nesta grande Família Mendes Gonçalves, pautada pela proximidade, confiança e cuidado. Com uma vontade obstinada de a fazer crescer.

Teremos, certamente, todos a ganhar com isso: a Casa, a Comunidade e o Mundo.

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