Fazer perguntas provocativas e inteligentes é fundamental para descobrir o que é mais valioso para nós e para os outros. Uma vez identificado o que realmente cria valor, é imperativo direcionar uma parte significativa do nosso tempo, recursos e energia para esses pontos. Embora pareça simples, essa é a etapa mais desafiadora, pois exige abrir mão de outras atividades, e não há outro caminho: para ganhar, é preciso soltar. É exatamente aqui que a maioria das pessoas tropeça.
A dificuldade de renunciar ao trivial
Somos naturalmente resistentes a abandonar hábitos e atividades que não contribuem de forma significativa para nossos objetivos. Criamos justificativas como “isso faz parte do meu dia a dia”, “se eu não fizer, quem fará?”, ou “é importante demais para delegar ou para deixar de lado”. Essa lista de desculpas é interminável e nos distrai do que realmente importa.
Um executivo que recentemente assessoramos desejava migrar do operacional para o estratégico. Solicitamos que listasse suas principais atividades e decidisse o que manter, reduzir ou eliminar. Das 15 tarefas mais demandantes do seu dia, ele optou por manter 10 no mesmo nível, reduzir 2 e intensificar 3. Explicamos que, a menos que ele eliminasse totalmente pelo menos 10 das atividades listadas, sua intenção de focar no estratégico permaneceria apenas um desejo, não uma realidade.
Dizer não é estratégico
Pesquisas em psicologia comportamental confirmam que pessoas e organizações tendem a priorizar tarefas urgentes em vez das mais importantes, mesmo quando estas últimas trazem maior valor no longo prazo. Estudos mostram que indivíduos frequentemente escolhem tarefas com prazos mais curtos, mesmo quando outras opções são igualmente fáceis e oferecem maior impacto, um padrão que se replica em processos corporativos e desvia atenção do essencial.
William Ury, em O Poder do Não Positivo, afirma que por trás de um “sim” importante há mil “nãos”. Steve Jobs dizia que foco é dizer não. O filósofo Émile-Auguste Chartier sustentava que pensar é dizer não. Para gerar valor genuíno, é fundamental aprender a dizer não a inúmeras opções e sim ao que realmente importa.
O papel do Princípio de Pareto no foco corporativo
O Princípio de Pareto demonstra que 20% das nossas ações frequentemente respondem por 80% dos resultados — um padrão observado em múltiplos contextos organizacionais e de mercado. Isso significa que grande parte dos esforços está concentrada em tarefas de baixo impacto, enquanto poucas iniciativas produzem a maioria dos resultados.
Em organizações eficientes, esse princípio é aplicado para identificar prioridades e realocar tempo e recursos para o que realmente gera valor, resultando em foco intensificado em atividades de alto impacto e eliminação ou automatização do resto.
Evidências de impacto do foco e da liderança em grandes empresas
Relatórios estratégicos globais indicam que o desempenho organizacional está fortemente relacionado ao alinhamento entre pessoas, liderança e foco estratégico. Um estudo abrangente da consultoria McKinsey analisou 1.800 empresas em 15 países e concluiu que aquelas que combinam desenvolvimento de pessoas com foco em desempenho alcançam resultados significativamente superiores, com desempenho até 4,2 vezes maior que a média.
Além disso, pesquisas comportamentais recentes apontam que boas práticas de liderança estão associadas a até 18% mais produtividade, 23% maior lucratividade e redução de absenteísmo em até 78%.
Esses dados reforçam que organizações que investem em liderança e priorização estratégica não apenas produzem mais, como também sustentam esse desempenho ao longo do tempo.
Casos práticos de foco e priorização
O exemplo da Roval, uma das maiores redes de farmácias de manipulação do Brasil, ilustra a aplicação prática da priorização: poucos médicos responsáveis por mais de 80% das receitas foram identificados e receberam tratamento diferenciado, o que elevou significativamente as vendas. Da mesma forma, o Grupo Natureza, com mais de 11.780 revendedoras, descobriu que apenas 2.792 respondiam por 80% das vendas e redirecionou esforços para esse grupo, com resultados fortemente positivos.
Ferramentas para decidir o que manter e o que abandonar
Para apoiar decisões sobre o que manter e o que abandonar, a Matriz de Valor é uma ferramenta especialmente eficaz. Ela permite analisar as atividades do dia a dia a partir de duas variáveis fundamentais: o tempo investido e o valor efetivamente gerado. Ao posicionar cada atividade nessa matriz, torna-se possível enxergar com mais clareza quais demandas consomem energia sem retorno proporcional e quais, mesmo exigindo pouco tempo, produzem impacto significativo.
Na prática, o exercício revela quatro tipos de atividades: aquelas que criam alto valor com baixo investimento de tempo, as que demandam maior dedicação mas também entregam alto impacto, as que consomem pouco tempo e quase não criam valor, e, por fim, as que exigem muito esforço e produzem pouco resultado. É neste último grupo que geralmente estão os maiores desperdícios de atenção e foco.
Ao visualizar essas relações, líderes e executivos conseguem alocar tempo e recursos de forma mais consciente, reduzindo ou eliminando atividades de baixo impacto e fortalecendo aquelas que realmente impulsionam resultados. Esse processo, embora envolva escolhas difíceis, é essencial para abandonar o trivial e sustentar decisões estratégicas que ampliam a criação de valor ao longo do tempo.
A coragem de dizer não
Albert Camus escreveu: “O que é um rebelde? Um homem que sabe dizer não.” Precisamos quebrar padrões e hábitos que nos prendem ao irrelevante ou ao improdutivo. Aprender a dizer não ao que consome tempo e não agrega valor é um passo essencial para construir uma vida e uma carreira mais significativas.
Como disse Albert Einstein: toda vez que você diz sim querendo dizer não, morre um pedacinho de você.
Fontes: hbr, InitiativeOne , Mereo, gazetamercantil.digital