Cultura para a Longevidade das Organizações 

Escritório moderno iluminado à noite, simbolizando a cultura organizacional sustentável e a governança sólida essenciais para a longevidade das empresas.
Foto de Giulia Grani na Unsplash

Quando se fala em sustentabilidade no meio empresarial, tem-se, geralmente, duas usuais reações. Uma apaixonada e outra realista. As nuances da paixão e do realismo variam conforme o interlocutor. A apaixonada usualmente toma “um lado” e se confunde com posicionamento político. Se não atrapalhasse seria apenas inútil; mas atrapalha.

E a realista, de igual modo, pode ter reflexos positivos ou não, mas não costuma ser danosa.

Explico:

Ao se ouvir que algumas organizações estão “abandonando” o ESG. Que tudo não passava de moda ou de ativismo, com raras exceções, estaremos diante de sujeitos aliviados por estarem “livres” de um custo indesejado. Poderão voltar ao “business as usual”, que “usualmente” consiste na velha prática de comando, controle, exploração de mercado saturado, oferecendo ao consumidor endividado mais um produto que ele não precisa.

O dia seguinte a gente já sabe qual será, e da mesma forma e no fundo, também sabem as lideranças dessas organizações. Um “muro de lamentações”, um constante revisar de cifras, o apelo para ofertas e bonificações que levam em consideração tão somente os números. Que oscilam entre melhoras e pioras e “la nave va”! Planejamento estratégico? Nunca ouvi falar. Quero é chegar no final do mês.

Para que estas organizações sobrevivam entra em cena o “sobrenatural”: sorte, milagre, mandinga! Tem também o pensamento positivo e o famoso “agora vai”!

Não raro encontram-se casos que podem ser atrelados a estas organizações de eventos e iniciativas “ESG” que não tiveram quaisquer resultados concretos.

O Dano das Iniciativas Superficiais

E é aí que surge o dano causado pela conduta desgovernada, pois de fato tais sujeitos são capazes de apresentar evidências de que as iniciativas (superficiais e desatreladas do negócio) não passaram de custo indesejado.

E este resultado pode ser aplicado também para os “apaixonados do bem”. Aqueles que da mesma forma seguiram planos imediatos de salvação do mundo e das pessoas sem qualquer visão de sustentabilidade.

E existem as organizações realistas. Aquelas, cujas lideranças, já perceberam que não podem pensar apenas no dia de hoje, e que, independentemente de suas crenças ou inclinações políticas, a longevidade das organizações depende de inúmeros fatores. 

Estes líderes gostariam que as suas empresas pudessem contar com um sistema formado por princípios e regras, estruturas e processos para dirigi-las e monitorá-las de modo a gerar, ao longo do tempo, valor sustentável (eis, de forma resumida, o conceito de governança segundo o IBGC).

Entre a Paixão e a Razão

O desafio, muitas vezes, para o líder de uma organização realista é deparar-se com sócios ou fundadores apaixonados, que para o bem ou para o mal, movidos pela emoção, podem direcionar-se para a implementação imediata de soluções que parecem as melhores para organização, mas que podem não passar pelo necessário entendimento de que as boas práticas de governança requerem estrutura, planejamento, realismo e, dentre outras, controles e métricas que podem apontar o melhor caminho, embasar decisões e mostrar o que está ou não funcionando. 

E é aqui que, mesmo os líderes apaixonados e bem-intencionados, podem se decepcionar pela ausência de uma cultura de governança.

Sustentabilidade: Estrutura e Coerência

Deste modo, a transformação cultural em termos de sustentabilidade, precisa ir além da “régua baixa” trazida muitas vezes pelo apontar de um caminho que apenas parece ser o mais correto.

Implementar programas sociais ou ambientais, sem pensar em seu consequente econômico e de longo prazo pode ser tão danoso quanto inverter a ordem desta equação e priorizar apenas o (sem dúvida necessário) resultado financeiro.

O que fazer então? É preciso ter calma, deixar as paixões de lado e se debruçar sobre o conhecimento da organização liderada, entender o que se faz hoje, qual o propósito da existência da organização e do produto ou do serviço que se propõe a entregar (Missão), olhar para o futuro é também fundamental, para onde, enfim estamos indo, aonde a organização quer chegar e por que? (Visão).

Os Princípios que Sustentam a Governança

Os princípios da Integridade, Transparência, Equidade, Accountability e da Sustentabilidade dão sentido e alicerçam tanto os primeiros passos para implementação de melhores práticas de governança corporativa, quanto para a sua manutenção e coerência ao longo do tempo.

Sustentabilidade, em linhas gerais, nada mais é do que a capacidade de existir, de se sustentar ao longo do tempo e sem esgotar os meios necessários para tal. Simples assim. O que não se pode fazer é minimizar o conceito, limitando seu alcance à sustentabilidade financeira, alicerçando tal fato na míope interpretação da obra de Milton Friedman.

Nas palavras de Alex Edmans, professor de finanças na London Business School:  

“Friedman’s article is widely misquoted and misunderstood. Indeed, thousands of people may have cited it without reading past the title. They think they don’t need to, because the title already makes his stance clear: companies should maximize profits by price-gouging customers, underpaying workers, and polluting the environment.” (Grow the Pie. How Great Companies Deliver Both Purpose and Profit, Alex Edmans, pages 49 ss).

Nem mesmo Friedman defendeu ações individuais, impensadas e danosas. Defendeu sim a livre concorrência, sensata e honesta, pois de outra forma, ações danosas aos stakeholders afetariam, no longo prazo a própria e defendida lucratividade.

Olhando um pouco mais de perto o princípio da sustentabilidade que pode ser definido, em resumo e seguindo a sugestão do Código de Melhores Práticas do IBGC (6ª edição) como o zelar “pela viabilidade econômico-financeira da organização, reduzir as externalidades negativas de seus negócios e operações e aumentar as positivas, levando em consideração, no seu modelo de negócios, os diversos capitais (financeiro, manufaturado, intelectual, humano, social, natural, reputacional) no curto, médio e longo prazos”

Compreendendo que as organizações atuam em uma relação de interdependência com os ecossistemas que a cercam.

Estruturar planejamentos estratégicos tendo em mente o princípio da sustentabilidade é obviamente pensar na longevidade da organização. Convencer-se e aos demais líderes que a criação de valor de longo prazo não se faz com soluções imediatas passa pela capacitação da liderança e dos colaboradores.

Sustentabilidade Econômica é Obrigação

Note que a sustentabilidade econômica é primordial para a mera existência de uma organização, seja ela empresarial com distribuição de lucros ou institucional sem remuneração de seus sócios ou associados. Para realizar seu propósito (ou objeto social) é fundamental que os recursos econômicos existam. Manter uma organização saudável economicamente é obrigação do administrador da organização (respeitadas todas as nuances legais de responsabilidade). “No one would remember the Good Samaritan if he´d only had good intentions. He had money as well.” Margaret Thatcher.

Como manter a sustentabilidade econômica num mundo desafiador? Ao pensarmos nos desafios sociais e ambientais que enfrentamos, não há como planejar esta sustentabilidade econômica sem levar estes aspectos também em consideração. E não é por bondade ou altruísmo, é por necessidade mesmo. Basta pensarmos o quanto um mundo e um mercado previsível nos ajuda ou o quanto a insegurança nos atrapalha.

A Necessária Transformação Cultural

Pensar a sustentabilidade é buscar soluções duradouras, é estabelecer critérios inteligíveis e transparentes de monitoramento de performance, é usar recursos financeiros e não pessoas, é respeitá-las e ao meio-ambiente, é construir o hoje e o amanhã.

A verdadeira sustentabilidade exige um equilíbrio entre paixão e pragmatismo, idealismo e realidade. É na cultura organizacional que esse equilíbrio começa, e é nela que se constrói o futuro.

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