Cultura das Organizações: Inteligência Artificial e Governança

Cultura organizacional em ambientes mediados por IA

Tenho refletido sobre a cultura organizacional em ambientes marcados pela presença de agentes de IA e por modelos de trabalho híbrido ou totalmente remotos. Minhas inquietações têm me levado a pesquisas, ainda nada conclusivas, sobre o tema.

Ao contrário do que podemos pensar num primeiro momento, existem muitos trabalhos científicos publicados sobre o tema que interconecta a capacidade de aprendizado da IA e seus aspectos humanos e sociais. Ao final deste texto trago algumas referências.

De modo geral, sou bastante favorável ao trabalho realizado de qualquer lugar, a qualquer hora. No meu caso, produzo melhor quando tenho liberdade. No entanto, reconheço plenamente o privilégio que isso representa.

Também escolhi o caminho do otimismo (com muito cuidado, mas ainda assim otimista) no que diz respeito ao uso consciente de ferramentas e agentes de Inteligência Artificial. É nestes dois contextos que venho tentando analisar a cultura organizacional e o nosso papel como Conselheiros(as) de Administração.

Se os planos estratégicos podem ser “engolidos” pela cultura organizacional, este é um tema que merece atenção. De que cultura organizacional estamos falando afinal?

Trabalho remoto, trabalho híbrido e a realidade do privilégio

Falar em trabalho remoto ou híbrido (sem nenhum compromisso com as definições legais sobre o tema) é tratar de uma realidade acessível a apenas 20% a 25% da população brasileira. Não é possível limpar a sede da empresa, atuar como segurança, coletar o lixo, consertar encanamentos ou servir café a partir do home office. Tampouco é possível atender um paciente à distância, em muitos casos, e ainda não é possível que o seu dentista lhe faça uma obturação remotamente ou ainda que o parto seja feito a distância (claro que tudo isso pode ser orientado pelo profissional à distância, mas você entendeu meu ponto.)

Por isso, é fundamental reconhecer o lugar de privilégio que alguns de nós temos a possibilidade de ocupar (e me incluo neste pequeno percentual de pessoas).

Liderança, qualificação e desigualdade de escolha

As pesquisas (Repositório IPEA, Um Panorama do Trabalho Remoto no Brasil e Nos Estados Brasileiros Durante a Pandemia da Covid-19) nos dizem ainda que esses 25% são majoritariamente trabalhadores considerados “mais qualificados”. Expressão infeliz, que desvaloriza atividades essenciais, especialmente as de cuidado.

Ainda assim, o conteúdo nos mostra que são as lideranças corporativas, em seus diversos níveis, que geralmente têm o poder de escolher onde trabalhar, assim como profissionais cuja atividade é classificada como “menos hands on” (com todas as ressalvas necessárias).

Diante disso, venho me perguntando sobre nossa capacidade, enquanto líderes, de discutir um tema que não vivenciamos de fato. Tenho um ótimo escritório em casa e outro na cidade. Meus privilégios são meus e da minha família.

Como posso analisar questões tão relevantes se estou isolada de uma realidade que não é a minha e que não chega até mim de maneira direta? Como influenciar, à distância, culturas que muitas vezes estão presentes em realidades difíceis, por vezes disfuncionais?

Onde há, por exemplo, violência doméstica, ação de facções e milícias?

Assim, a análise da cultura organizacional no trabalho remoto, quando embasada apenas em modelos pré-2020, precisa ser vista com cautela. Há um elemento novo: a realidade da vida que cerca o colaborador fora da “redoma” do ambiente de trabalho. Adoraria ver mais estudos sobre esse tema.

Inteligência Artificial e cultura organizacional: riscos e oportunidades

Ao tema das questões relativas à vida que cerca o colaborador e a colaboradora, soma-se a “ameaça” da IA. Se alguns trabalhos serão substituídos por tecnologias — e se elas carregam tanto riscos quanto vantagens — como tratar a questão cultural das empresas nesse contexto?

No livro Nine Lies About Work, Marcus Buckingham e Ashley Goodall afirmam que a cultura organizacional conta menos do que a cultura das equipes:

While people might care which company they join, they don’t care which company they work for. The truth is that, once there, people care which team they’re on.

Cultura das equipes, identidade e controle no trabalho mediado por tecnologia

Onde estarão as equipes com as quais as pessoas constroem identidade, pertencimento e proteção? Continuarão a existir, sem dúvida, mas em quais formatos?

Como garantir que a cultura organizacional seja permeada em ambientes onde lideranças podem se limitar a atribuir tarefas e monitorar performance por ferramentas digitais — em uma releitura contemporânea do “chicote e da cenoura”?

Se antes da IA a cultura já era um desafio, agora novos vetores precisam ser analisados.

Cultura organizacional, estratégia e o legado de Peter Drucker

Peter Drucker, desde 1954, já defendia que o fator humano e cultural é central para o sucesso das organizações. Sem uma cultura sólida, a estratégia tende a falhar.

Embora Drucker não tenha escrito literalmente que “culture eats strategy for breakfast”, o conceito é amplamente inferido de sua obra: a cultura molda, condiciona ou até subsume a estratégia.

Mas quem está analisando essa relação sob a perspectiva da Inteligência Artificial?

Como será perpetuada a cultura organizacional em ambientes mediados por IA? Como se sustentarão “bolsões virtuosos” dentro de empresas com lideranças tóxicas?

Uma convivência presencial mensal será suficiente?

Se a IA é capaz de inferir traços, padrões e comportamentos com alta precisão — como mostram as pesquisas de Michal Kosinski, do Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence — o desafio cultural assume novas dimensões.

Aquilo que antes se construía por meio de rituais humanos, presença física e hábitos informais passa agora a ter um paralelo algorítmico.

Em organizações onde agentes de IA mediam interações, a cultura pode ser capturada, mapeada e replicada. O risco: automatizar padrões tóxicos. A oportunidade: redesenhar culturas mais saudáveis.

Como garantir que valores éticos, confiança e senso de pertencimento não sejam perdidos nesse processo?

Governança, ética em IA e o papel dos Conselhos de Administração

A possibilidade de uma IA funcionar como uma “biblioteca viva” da cultura organizacional — consultável, auditável e aplicada em tempo real — traz enorme potencial para conselheiros e lideranças.

Mas também amplia a responsabilidade dos Conselhos em garantir que o ambiente organizacional seja capaz de sustentar e executar a estratégia definida.

Esse debate não acontecerá apenas no “month to month” das reuniões. Caso contrário, corremos o risco de sermos atropelados por uma nova cultura — sobre a qual a própria organização pode perder a ingerência.

Referências e estudos citados

Can a Machine Know That We Know What It Knows? – The New York Times
Evaluating Large Language Models in Theory of Mind Tasks – PNAS

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